O Decreto nº 3.589, de 12 de
dezembro de 2011, sancionado pelo Prefeito de Ilhéus e de autoria do vereador
Alzimário Belmonte pretende obrigar alunos da rede pública de ensino a rezar o
“Pai Nosso” na escola. Parece até uma piada ouvir uma notícia como essa que
soa, além de destoante, como um dos maiores absurdos que se pode viver em um
estado laico.
Assim começamos a perceber o
que nos sobrou da ditadura. Que essa proposta entre em ação em um governo
ditatorial, ninguém pode fazer nada e ainda se compreende, pois o governo
ditatorial cala a liberdade de expressão e apenas defende um tipo de verdade: a
verdade do Estado. Não em uma democracia que abrange povos oriundos de diversas
etnias distintas, com suas crenças, seus valores e seu comportamento. Isso nos leva a refletir como esse mundo
ocidental racionalista e positivista que se pretende estar evoluindo só começa
a demonstrar o profundo atraso. A boa família continua sendo a branca, nuclear
e burguesa... O Brasil é um país laico, senhores! Não se esqueçam dessa lição
que deveria existir na pasta da carreira política de vossas senhorias! Ao
contrário de muitos do Oriente Médio e do norte da Europa aqui o Estado não
deve ter vínculo algum com uma religião específica, pois não temos religião
oficial. Temos é um calendário católico altamente capitalista que situa bem as
datas festivas no mapa do tempo para o consumo crescer. Porém, não temos religião oficial no Brasil! Pelo
menos é o que diz no Artigo 19 da Constituição Federal, aquela que é superior a
qualquer outra forma de legislação ou normação, inclusive superior ao Decreto
nº 3.589.
A escolha pela oração “Pai
Nosso” é de base eurocêntrica. A oração é cristã, advinda da cultura branca
europeia que sempre atuou como a superior pseudocultura ocidental, mas que
matou milhões em nome do seu Deus e que sempre agiu em favor das classes
dominantes do capitalismo selvagem. Não
à toa o filósofo Friedrich Nietzsche dedicou parte de sua obra para tecer
críticas a esse modelo violento e hipócrita. Mas o que de fato deve ser vigiado
e cumprido é notoriamente esquecido. É o caso da Lei Federal 10.639/03 que
estabelece o ensino de História, cultura e Literatura africana na escola. Ela está
esquecida, sem nenhum tipo de fiscalização que a faça ser cumprida. Essa legislação
nenhum vereador ou prefeito quer ou tenta defender: “Lei que dá igualdade a
pretos, não é, doutores coronéis?” Por que não parar de superiorizar a cultura
do branco, europeu e montar projetos que visem à promoção da história de todas
as etnias, com professores sérios e com concursos e práticas identitárias? Resposta:
Porque esse mundo monológico do bem e do mal, da bondade e maldade, do Deus e
do Diabo é mais forte na política do que pensávamos!
Enquanto o Brasil se torna
um importante campo de cientistas sérios, a Política se afasta dessa seriedade
e faz uma bela confusão entre política e religião, se misturando e se vendendo
a valores que privilegiam um comportamento em detrimento de outros. As
religiões têm que existir e é bom que existam! Mas lá, na Igreja, onde é o
lugar delas. Escola é um lugar da ciência, do conhecimento, da produção
científica, seja ela qual for. E “Pai Nosso” não é ciência, ao menos até este
presente século XXI.








